SÉRGIO ROBERTO CORRÊA (1941-1969) e ISHIRO NAGAMI (1941-1969)

julho 29, 2011

SÉRGIO ROBERTO CORRÊA (1941-1969)
ISHIRO NAGAMI (1941-1969)
Data e local de nascimento: 1941, São Paulo (SP)
Filiação: Kikue Nagami e Keizo Nagami
Organização política ou atividade: ALN
Data e local da morte: 04/09/1969 em São Paulo (SP)
Em 04/09/1969, na madrugada seguinte à prisão de Antenor Meyer e morte de José Wilson Sabag, um veículo Volkswagen placa 44-52-75 explodiu na rua da Consolação, esquina com Maria Antonia, em São Paulo, causando a morte de dois militantes que, segundo informações dos órgãos de segurança, pertenceriam à ALN. Na época, especulou-se que os dois jovens de 28 anos se dirigiam rumo ao edifício sede da Nestlé, poucas quadras adiante, para praticar um atentado a bomba, quando o petardo teria explodido, causando a morte imediata dos ocupantes do automóvel.
Documentos dos órgãos de segurança do regime militar informam que Ishiro usava o codinome Charles e teria ligações com José Wilson Lessa Sabag e também com outro militante da ALN, Otávio Ângelo, que em 1970 foi banido do país em troca da libertação do cônsul japonês em São Paulo. Os jornais informaram que, imediatamente após a explosão, policiais localizaram o endereço do motorista, Ishiro Nagami, à rua Jaguaribe, 619, prendendo em seu apartamento os professores Francisco Roberto Savioni e Suziko Seki, do cursinho Equipe,
apreendendo também mais de 50 cartuchos de dinamite que teriam sido roubados da pedreira Rochester, em Mogi das Cruzes.
O nome de Ishiro Nagami consta do Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos, mas seu processo foi indeferido por não ter se caracterizado a morte por responsabilidade de agentes do Estado vinculados à repressão política. Há informações de que ele também era professor no referido curso pré-vestibular. Seus restos mortais foram sepultados pela família
no Cemitério de Guarulhos (SP). Sérgio Corrêa teve o corpo  completamente destroçado e foi enterrado como indigente no Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, não tendo sido apresentado, por seus familiares, requerimento à CEMDP em seu nome. Nascido em Mogi das Cruzes em 27/07/1941, filho de Benedito e de Dona Helena, tendo como irmãos Tom e José. Estudou naquela cidade até concluir o colegial no Instituto de Educação Dr. Washington Luís e ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antonia, por volta de 1966.
Documentos dos órgãos de segurança e da Justiça Militar Federal de São Paulo o incluem como militante da ALN, integrante de seu Grupo Tático Armado, onde adotava o codinome Gilberto e teria participado de várias ações armadas. Teria participado, ainda, de um curso sobre explosivos, ministrado pelo militante Hans Rudolf Manz.
ISHIRO NAGAMI
Militante da AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL (ALN).
Nasceu em 1941, em São Paulo, filho de Keizo Nagami e Kijue Nagami.
Era professor.
Aos 28 anos, morreu juntamente com Sérgio Correia, em setembro de 1969, na rua Consolação, São Paulo, quando o carro em que viajava explodiu em conseqüência da detonação de explosivos que transportavam.
Enterrado no Cemitério de Guarulhos pela família.

SÉRGIO CORREIA
Militante da AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL (ALN).
Morto, juntamente com Ishiro Nagami, em 4 de setembro de 1969, na rua Consolação, São Paulo, quando o carro em que viajava explodiu em conseqüência da detonação de explosivos que transportavam.
Enterrado no dia 19 de setembro de 1969, como indigente, no Cemitério de Vila Formosa (SP).
O arquivo secreto da Resistência – I   jornal O Diário

PASSEATA – Universitários mogianos saem em passeata de protesto contra o regime militar. Era março de 1968 Sérgio Roberto Correa é um mogiano. Nasceu aqui no dia 27 de julho de 1941, filho do sr. Benedito e de dona Helena, irmão de Tom e Zé. Fez o curso Primário na Cidade, o Secundário e o Colegial no Instituto de Educação Dr. Washington Luís. Há um tempo, meados dos anos 60, mudou-se para São Paulo e para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Vinha sempre a Mogi visitar os pais, irmãos, os amigos. Até que, em 1967, fez sua última visita. Uma visita rápida. E nunca mais foi visto. Neste domingo começa a ser publicada a reconstituição dessa história e de muitas outras que envolveram jovens de Mogi naqueles anos rebeldes de oposição ao regime militar.
Não dá para esquecer o último encontro que tive com Serginho. Na verdade, eu e Sérgio Roberto Correa não fomos aquilo que se pode chamar de amigos próximos. Seis anos mais velho do que eu, Serginho fez o Colegial no Instituto de Educação Dr. Washington Luís ao tempo em que eu frequentava o Ginasial no Liceu Braz Cubas. Quando cheguei ao Instituto para o Colegial, ele já estava em São Paulo, frequentando os corredores da Maria Antônia, como conhecíamos a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.
Mas, em uma Cidade de menos de 80 mil habitantes, todos os jovens estudantes se conheciam. E Serginho era contemporâneo de meu irmão, Guilherme, no Instituto.
Pois naquela manhã de 66 em que encontrei Serginho para um programa estudantil em uma rádio da Cidade, nós dois já havíamos vencido a etapa Colegial dos estudos. Eu estava entrando na Faculdade de Direito, um calouro; ele tinha muito a falar sobre os estudos em São Paulo. Àquele tempo, com apenas duas faculdades (Direito da Braz Cubas e Filosofia da OMEC), Mogi mandava muitos dos seus jovens para as escolas da Capital. E todos se conheciam, dividiam repúblicas, pratos-feitos e falta de dinheiro em São Paulo.
O programa de rádio, dirigido pelo Cid Jardim, tratava de tudo o que, supúnhamos, interessasse aos estudantes. E Serginho estava ali para falar de suas experiências no Grêmio Estudantil Ubaldo Pereira, do Instituto, das dificuldades em enfrentar a vida na Capital (nesse ano, obteve uma bolsa de 75% no Cursinho da Filosofia/USP) e do dia a dia. Ele tinha 25 anos.
Os jovens de Mogi, nesse ano (1966), começavam a viver uma nova rotina. Até então, o movimento estudantil da Cidade era totalmente apolítico, dominado por secundaristas que se dedicavam às competições esportivas da Braz-Col (uma olimpíada entre o Liceu e o Instituto) e à rivalidade entre as duas fanfarras, que se digladiavam nos campeonatos promovidos pela TV Record. A mesma emissora que movimentava a juventude brasileira com seus festivais de MPB, lançando Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Nara Leão e Elis Regina no meio artístico.
A rotina alterada pela consciência política expressada nos festivais de música e transmitida pela televisão branco e preto era reforçada em Mogi pelo surgimento dos primeiros cursos superiores. Até então, o jovem mogiano interessado em uma faculdade tinha de procurar as escolas da Capital.
A mudança começou em 65, com a instalação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da OMEC, evolução do pioneiro curso de admissão ao ginásio instalado em 1962 por Manoel Bezerra de Melo e que caminhou, em seguida, para o Ginásio Diocesano. Em 66, a Sociedade Civil de Educação Braz Cubas instalou a sua primeira faculdade, a de Direito.
Os dois primeiros cursos superiores trouxeram consigo professores da Capital e passaram a irradiar pela cidade provinciana – e por sua juventude – o espírito universitário.
A isso coincidiu a evolução do TEM – Teatro Experimental Mogiano, reconhecidamente um núcleo de debates e do Clube de História Professor Jair Rocha Batalha. Paralelamente, decaíam as competições da Braz-Col e das fanfarras. Os interesses dos jovens eram outros. Eles discutiam os rumos da política brasileira, iam às estações da Estrada de Ferro Central do Brasil ver passar a Caravana da Esperança.
A Caravana foi um trem que o ex-governador carioca Carlos Lacerda idealizou para percorrer o interior do Brasil em 1967 na difusão da Frente Ampla, movimento político que defendia a democracia, eleições diretas para a Presidência da República e tinha, como líderes principais, além de Lacerda, os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. Na política local, os espaços eram divididos entre o prefeito de então, Carlos Alberto Lopes e o seu vice-prefeito, opositor ferrenho, Waldemar Costa Filho. O ano de 66 foi de eleição federal e, pela primeira vez desde os anos 30, a Cidade via um residente ser conduzido ao Congresso: Manoel Bezerra de Melo, que havia feito campanha em dobradinha com Chiquito Franco, deputado estadual com laços familiares na Cidade.
Este conjunto de “coincidências” marcou em definitivo a juventude de Mogi das Cruzes, que já vinha recolhendo experiências de atuação política. No golpe de março de 64, por exemplo, alguns alunos do Instituto de Educação chegaram a ser presos. Foi o caso de Kunio Suzuki, então matriculado no 3º ano clássico e apanhado como colaborador do Sindicato dos Metalúrgicos. De volta ao Brasil após anos na Europa e na África, Kunio Suzuki lembrou essa época como algo muito distante:
“Eu tinha feito campanha nas eleições do Sindicato dos Metalúrgicos. Lembro-me, dessa época, de vários companheiros. Fiquei preso uma semana em um processo que não foi em frente” disse-me ele próprio há algum tempo.
1968 foi um ano complicado. Nele aconteceu de tudo. Logo no início do período letivo escolar, uma manifestação no Rio de Janeiro resultou na morte de um estudante secundarista – Edson Luís de Lima Souto. Era o cadáver que os líderes estudantis mais radicais precisavam para deflagrar um processo de sucessivas manifestações públicas. Também em 1968, as organizações clandestinas, como a Aliança Libertadora Nacional (ALN) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), ampliaram suas ações de resistência ao regime militar. Eram assaltos a bancos para coletar fundos que sustentassem a clandestinidade de seus membros. Havia atentados a bomba e uma ação governamental forte de combate a tudo, que desaguou na edição do Ato Institucional nº 5, em dezembro. Nesse ano, informam os arquivos do antigo DOPS – Departamento de Ordem Política e Social da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, o mogiano Serginho Correa participou das primeiras ações como integrante da ALN.
O Diretório Acadêmico 1º de Setembro da Faculdade de Direito Braz Cubas funcionava, em 1968, numa casa alugada na Rua Santos Cardoso. Era ali que seu presidente na época, o atual procurador de Justiça aposentado e professor universitário Euclides Ferreira da Silva Junior, conduzia as reuniões da diretoria e todos idealizavam as ações da entidade. Em fevereiro de 1968 pensou-se em um trote de recepção aos calouros da faculdade que rompesse a violência tradicional dos cortes de cabelo. E imaginou-se uma passeata para sábado (30 de março) pelas ruas da Cidade no mais puro estilo das “peruadas” da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Mas…
Na quinta-feira, dia 28, no Rio de Janeiro, morreu o estudante Edson Luís de Lima Souto. A sexta-feira toda foi dedicada pelos estudantes da Faculdade de Direito Braz Cubas e do Diretório Acadêmico 1º de Setembro a debater o que fazer com a passeata de sábado. Suspendê-la? Mantê-la?
Decidiu-se, no início da noite de sexta-feira, pela manutenção, incluindo entre seus participantes manifestações de repúdio à ação policial no Rio de Janeiro.
Em São Paulo, o clima não era diferente. O ex-deputado José Dirceu, um dos líderes do movimento estudantil em 68, conduzia, ao lado de Catarina Meloni, seguidas manifestações públicas. Paralelamente ao movimento estudantil, iam se estruturando as organizações clandestinas de resistência.
O mogiano Sérgio Roberto Correa já então integrava os quadros da Aliança Libertadora Nacional – ALN.
Um comunicado sigiloso, da Divisão de Informações do DOPS afirma:
“Consta nesta Divisão uma relação de assaltos praticados por elementos subversivos-terroristas, em 1968, pela ALN, figurando o marginado (N.do A.: Sérgio Correa), no atentado a bomba contra a casa do diretor do Parque da Aeronáutica, em 1971, tendo sido considerado como morto”.
Sérgio era conhecido, no movimento de resistência, pelo codinome “Gilberto”. Esse informe da Divisão de Informações do DOPS é apenas um dos indícios de sua morte em ação. Como se verá na sequência desta série, muitos outros fatos irão confirmar – e desmentir – isso.
Em São Paulo, Serginho alterava sua rotina de vida dividindo-se entre as aulas na Faculdade de Filosofia, o trabalho no cursinho da Filosofia e no cursinho Equipe. Nesses locais era visto sempre em companhia de Ichiro Nagami, personagem que terá muita importância a seguir. Era, também, amigo de Hans Hudolf Jacob Manz, outro personagem importante na sequência desta série para definir a trajetória do mogiano Serginho Correa.
Em São Paulo, Sérgio encontrava-se esporadicamente com outros mogianos. “A esse tempo – disse-me Kunio Suzuki, contemporâneo do movimento estudantil – eu frequentava o curso de História na Universidade de São Paulo, fui preso duas vezes em manifestações estudantis e, em dezembro de 1968, acabei entre os 2 mil estudantes presos na desocupação do CRUSP – Conjunto Residencial da USP –, onde morava. Até hoje não sei o motivo, mas fui o último a ser solto. E acabei indiciado nesse processo”. O CRUSP, em 68, foi ocupado literalmente pelos estudantes que o mantinham como “território livre”. Mas, em dezembro, coincidindo com a edição do AI-5, forças do Exército retomaram os prédios e seus pátios, prendendo 2 mil estudantes. Entre eles, vários mogianos como Kunio Suzuki. Sérgio Correa não estava lá.
Como também não esteve na ação de Sabaúna, onde explosivos foram levados da Pedreira Rochester. Um dos participantes dessa ação, Denisson Luiz de Oliveira, na época com 21 anos, declarou ao DOPS que “Gilberto”, o codinome de Sérgio, era integrantes da ALN, mas não esteve em Sabaúna. Afirma Denisson, entretanto, que a ação no distrito de Mogi das Cruzes foi liderada pelo ex-capitão do Exército Carlos Lamarca.
Um mês antes do AI-5 e da desocupação do CRUSP, em novembro de 1968, Sérgio Correa encontrou-se com Aimar Biu na residência de Hans Manz para um curso sobre explosivos. A informação foi dada pelo próprio Aimar também aos serviços de segurança do governo.
Em Mogi das Cruzes, o ano de 68 terminou com a eleição de um novo prefeito: Waldemar Costa Filho.
A edição do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, e a forte reação aos movimentos formais de resistência ao regime militar provocaram, a partir do início de 1969, um divisor de águas, principalmente entre os jovens. De um lado, o grupo de estudantes que optou por seguir os estudos e iniciar uma carreira profissional; de outro, aqueles que se engajaram nos movimentos de resistência e ingressaram nas organizações que iam se formando. Sérgio Roberto Correa estava entre estes.
Integrante da Aliança Libertadora Nacional, seu nome é citado como participante de várias ações empreendidas pela organização nos anos de 1968 e 1969. Ao todo, foram 24 atos creditados à ALN. Sérgio é citado em vários, mas a comprovação de sua participação fica por conta, apenas, de depoimentos hoje arquivados. Sérgio nunca foi preso, e os membros da organização ouvidos pela polícia, na época, colocaram-no, em 1969, nas seguintes ações:
Abril – Atentado a bomba contra a residência do diretor do Parque da Aeronáutica.
Junho – Atentado a bomba, pela segunda vez, contra a residência do diretor do Parque da Aeronáutica; ação contra o Banco do Brasil, agência de Utinga; atentado a bomba contra a Companhia Brasileira de Investimentos, no Vale do Anhangabaú.
O fato de nunca ter sido preso torna impossível confirmar a presença de Serginho em todas essas ações. Pelo menos um dos participantes do atentado de junho contra a CBI garante que Sérginho não esteve envolvido diretamente na ação. “Talvez ele formasse na equipe de apoio, incumbida de dar cobertura àqueles que ingressaram no prédio, como eu. Ali, eu não vi o Sérgio”. Essa questão é importante por conduzir a algumas conclusões. Esse mesmo personagem, hoje advogado em São Paulo, com família formada, fez parte do GTA – Grupo Tático Armado da Aliança Libertadora Nacional e participou da ação contra a agência do Unibanco em Suzano, em maio de 1969. Nessa ocasião houve tiroteio e morreu o investigador de polícia José de Carvalho. Em dezembro de 1971, quando foi morto Carlos Eduardo Pires Fleury, também dos quadros da ALN, a polícia informou que Carlos, conhecido na organização como “Humberto”, foi o responsável pelo tiro que atingiu o investigador. O personagem, que não viu Sérginho no prédio da CBI, também não viu Carlos no banco de Suzano.
“Eu fui ferido nesse dia e é impossível determinar de qual arma saiu o tiro; foi tudo muito confuso depois que apareceu aquela viatura policial. Além do mais, nós não andávamos armados. Quando havia ação, recebíamos a orientação e as armas. Sabíamos que havia equipe de cobertura, mas não sabíamos quem a integrava. Depois da ação, que ao todo envolvia cerca de 20 pessoas, das quais apenas três ou quatro tinham participação direta, saíamos em um carro e, algum ponto depois, deixávamos armas e dinheiro nesse carro e tomávamos outro. Nesse dia, o Carlos Fleury não estava dentro do banco”.
A primeira referência a “Gilberto”, codinome de Sérgio Roberto Correa na ALN, disponível nos arquivos pesquisados, foi feita em 6 de novembro de 1969. Nesse dia, o estudante Celso Antunes Horta Júnior descreveu “Gilberto” como “pessoa de estatura média, magro, aparentando 25 anos de idade e usando bigodes de tamanho normal”. Quando os policiais lhe apresentaram uma foto de Sérgio, ele não o identificou como “Gilberto”.
Em setembro de 1969, quando explodiu o Volkswagen na Rua da Consolação e Sérginho desapareceu, todos os seus companheiros passaram a alimentar a convicção de que ele era o ocupante do carro e que não foi identificado.
A estação de trens de Jundiapeba ainda hoje registra um movimento pequeno. Mas, em setembro de 1969, ele era ainda muito menor. Pois é nessa época – dia 11 – que os arquivos disponíveis relatam que várias pedras colocadas sobre os trilhos causaram dois acidentes perto da estação de Jundiapeba, distrito de Mogi das Cruzes.
As notícias sobre várias ações contra bancos chegavam a Mogi das Cruzes, em 1969, apenas por meio dos jornais, rádio e televisão. Parecia até que a região estava vacinada contra esse tipo de ação.
Até que…
Foi em maio de 1969. Um grupo, depois identificado como pertencente à Aliança Renovadora Nacional programou um assalto à agência da União de Bancos Brasileiros em Suzano. Durante a ação, o investigador de polícia José de Carvalho morreu.
Sua morte foi creditada a Carlos Eduardo Pires Fleury, conhecido nos quadros da ALN como “Humberto”, “Teixeira” ou “Quincas”, integrante do Grupo Tático Armado da organização. Carlos foi preso em setembro de 1969 em São Paulo e responsabilizado por dois atentados contra a residência do diretor do Parque da Aeronáutica em São Paulo (abril e junho de 1969) e por várias ações em banco, inclusive a do Banco do Brasil em Utinga (julho de 1969).
Em junho de 1970, Carlos Eduardo foi banido para a Argélia. Ele era aluno da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP até 68 e morreu em dezembro de 1971 no Rio de Janeiro. Segundo a polícia, reagiu quando abordado em um Dodge Dart roubado, localizado no bairro do Meier. Tinha 26 anos.
Naquela madrugada de 4 de setembro de 1969, o cruzamento das ruas Maria Antônia e Consolação, em pleno centro de São Paulo, vivia um típico amanhecer paulistano: fazia frio, garoava e poucos carros obedeciam ao semáforo. Não foi o caso do sedan Volkswagen azul, com as placas 44-52-75. Ele parou no sinal vermelho. Em seguida, explodiu.
Os destroços do carro, totalmente destruído, espalharam-se por dezenas de metros, levando junto restos humanos. Todos os vidros de um edifício de quatro andares, a 50 metros do local da explosão, foram quebrados. Uma das portas do carro caiu no estacionamento de uma repartição pública, distante 100 metros do cruzamento.
O motorista do Volks, com as duas pernas amputadas, foi encontrado ainda com vida. Era Ichiro Nagami. Seu companheiro, não identificado, morreu na hora.
A polícia, tão logo identificou o proprietário do veículo – Ichiro –, correu ao seu apartamento, no 6º andar do prédio 619 da Rua Jaguaribe. Lá, prendeu um amigo e os professores Francisco Roberto Savioni e Suziko Seki, do cursinho “Equipe”. E recolheu, no apartamento, mais de 50 quilos de cartuchos de dinamite, identificados como parte da carga roubada em dezembro de 1968 na Rochester, localizada no distrito de Sabaúna, em Mogi das Cruzes.
Publicado originalmente em dezembro de 2006

Ishiro Nagami
 
Ficha Pessoal
 
Dados Pessoais
Nome: Ishiro Nagami
Cidade:
(onde nasceu)São Paulo
Estado:
(onde nasceu)SP
País:
(onde nasceu)Brasil
Data:
(de nascimento)/1941
Atividade: Professor
 
Dados da Militância
Organização:
(na qual militava)Ação Libertadora Nacional ALN
Brasil
Morto ou Desaparecido:Morto
0/9/1969
São Paulo SP Brasil
R. Consolação
Clandestinidade

 
Dados da repressão
Médico legista:
(envolvido na morte ou desaparecimento)José Gonçalves Dias, Paulo Augusto Queiroz Rocha
 
Biografia
 
Documentos
Ficha pessoal
Documento do IML, de 24/09/69 com os dados do óbito. Está quase ilegível.

Laudo de exame de corpo delito
Documento do IML/SP, de 17/09/69, realizado por José Gonçalves Dias e Paulo Augusto de Queiroz Rocha.

Requisição de exame de cadáver
Requisição de exame ao IML/SP, solicitada pelo DOPS, em 04/09/69. Indica morte por acidente (explosão de veículo). A cópia encontra-se pouco legível.

Ofício
Documento do DOPS/SP, de 05/09/69, solicitando ao IML a liberação do corpo de Ishiro, o qual foi vítima de uma explosão em automóvel, após autopsiado, a ser entregue para sua irmã, Utata Nagami Hori.
Sérgio Correia
 
Ficha Pessoal
 
Dados Pessoais
Nome: Sérgio Correia
 
Dados da Militância
Organização:
(na qual militava)Ação Libertadora Nacional ALN
Brasil
Morto ou Desaparecido:Morto
4/9/1969
São Paulo SP Brasil
R. Consolação
Clandestinidade

 
Dados da repressão
Médico legista:
(envolvido na morte ou desaparecimento)José Gonçalves Dias, Paulo Augusto Queiroz Rocha
 
Biografia
 
Documentos
Foto
Foto original dos restos do cadáver, em preto e branco.

Foto
Foto de Sérgio, acompanhada de número de cédula de identidade. Há mensagem ordenando seu arquivamento, datada de 02/07/70. Documento encontrado no arquivo do DOPS.

Laudo de exame de corpo delito
Laudo de exame do IML/SP, de 04/09/69, realizado por José Gonçalves Dias e Paulo Augusto Queiroz Rocha. Consta a informação: “Desconhecido n. 3700”.

Requisição de exame de cadáver
Requisição de exame ao IML/SP, solicitada pelo DOPS/SP, em 04/09/69, indicando morte devido a explosão de veículo em via pública. No item nome, consta a informação “restos de cadáver”. O documento foi manuscrito.

 

_______________________________________________
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